Enquanto o ex-companheiro dormia, uma dona de casa de 52 anos permanecia imóvel diante do fogão. Ao perceber que o óleo de cozinha havia atingido alta temperatura, ela levou a panela até o quarto e despejou o líquido sobre Evando Santos Gonçalves, de 57 anos. O crime aconteceu em 18 de agosto do ano passado, no bairro de Caixa d’Água, em Salvador. Evando morreu uma semana depois, no hospital. A mulher acabou presa. Casos como esse ilustram uma tendência observada nos dados oficiais: as mortes por lesão corporal seguida de morte cresceram quase 70% na Bahia nos últimos cinco anos.
O levantamento do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, aponta que o estado contabilizou 181 vítimas desse tipo de crime entre 2022 e os cinco primeiros meses de 2026.
A evolução dos números mostra um aumento expressivo. Entre janeiro e maio de 2022, foram registradas 23 vítimas. Em 2023, o número saltou para 38. No ano seguinte, atingiu o maior patamar do período analisado, com 41 casos. Em 2025, houve uma leve redução para 40 registros, seguida de 39 vítimas entre janeiro e maio deste ano.
No comparativo entre janeiro e maio de 2022 e o mesmo período de 2026, a Bahia registrou um aumento de 69,57% nas vítimas de lesão corporal seguida de morte. Apesar das pequenas oscilações anuais, o número de casos permanece em um patamar significativamente superior ao registrado em 2022.
A lesão corporal seguida de morte difere do homicídio doloso porque o agressor não age com a intenção inicial de matar, mas emprega violência suficiente para provocar a morte da vítima. São crimes frequentemente relacionados a espancamentos, brigas, violência doméstica e outros conflitos interpessoais, fora do contexto das disputas entre facções criminosas.
“Os números oficiais são ainda mais preocupantes porque contabilizam apenas os casos em que a agressão resultou diretamente em morte, deixando de fora milhares de vítimas que sobrevivem com sequelas permanentes, como cegueira, surdez, lesões cerebrais, perda de membros, paraplegia e outras incapacidades graves, que produzem impactos duradouros para as vítimas, suas famílias e toda a sociedade”, afirma o presidente da Comissão de Prerrogativas da Advocacia Criminal da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas na Bahia (ABRACRIM-BA), Mateus Nogueira da Silva.
Distúrbio social
Para o advogado criminalista Alonso Guimarães, o crescimento reforça que a violência letal na Bahia não pode ser analisada apenas pelos indicadores tradicionais de homicídios.
“Essa instabilidade social, econômica e política favorece os conflitos, que tendem a ser mais violentos em regiões que sofrem com dificuldades de acesso à informação, iluminação pública precária, limitações na atuação das forças policiais e consumo excessivo de bebidas alcoólicas e drogas. Todo esse conjunto contribui para o agravamento do distúrbio social”, afirma.
A análise por sexo revela forte predominância masculina entre as vítimas. Das 181 registradas no período, 167 eram homens e apenas 14 mulheres. O perfil acompanha outros indicadores da violência letal, que também apontam maior vitimização de homens, principalmente jovens e adultos.
“O gênero masculino tende a apresentar comportamento mais agressivo por conta da própria estrutura social em que está inserido. Em determinadas comunidades, a principal referência para muitos jovens deixa de ser o padre, o pastor ou o professor e passa a ser justamente a figura mais violenta daquele ambiente”, avalia Guimarães.
Para Mateus Nogueira da Silva, a sensação de impunidade também contribui para esse cenário. Segundo ele, muitas agressões físicas ainda são tratadas como infrações de menor gravidade, sem investigação aprofundada ou resposta estatal proporcional, o que ajuda a disseminar a falsa percepção de que agredir ou espancar alguém dificilmente resultará em punição.
“Quando a sociedade passa a enxergar a violência física como algo que dificilmente será efetivamente punido, cria-se um ambiente favorável ao agravamento desses comportamentos, com reflexos não apenas no aumento das lesões graves e das mortes, mas também no crescimento de outros crimes associados à violência”, conclui. Correio da Bahia








