O primeiro turno das eleições terminou com 33 milhões de brasileiros deixando de exercer o direito ao voto. Em uma eleição acirrada como a presidencial, a abstenção impacta diretamente nos resultados: foram 21,08% dos brasileiros que deixaram de votar neste ano. Cidadãos ouvidos citam desânimo com a política, viagens, burocracia para transferência de título e questões de acessibilidade como motivos para o não comparecimento às urnas.
O percentual dos eleitores que não votaram é o maior para o primeiro turno presidencial desde as eleições de 1998. Naquele ano, com a reeleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC), 21,49% dos eleitores faltaram à eleição.
Depois disso, houve uma recuperação, com mais brasileiros indo às urnas escolher não só seus presidentes, como governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Mas em 2018, o percentual de brasileiros que preferiram não exercer o direito ao voto ultrapassou 20% e tem crescido pouco a pouco nos últimos pleitos.
O eleitor que não votar no primeiro turno pode sim votar no segundo, já que, para a Justiça Eleitoral, cada turno é um novo pleito e, portanto, faltar ao primeiro não impede que o eleitor vote no segundo.
No Brasil, o voto é obrigatório para cidadãos maiores de 18 anos e menores de 70 alfabetizados, segundo a Constituição Federal. Os motivos para um eleitor deixar de comparecer na chamada “festa da democracia” são variados. Mas uma marca que permeou essa eleição foi o desânimo da população.
Para Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), o desânimo tem como um dos motivos a polarização. Com os dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), com altos índices de rejeição, há um “ambiente de desalento” com a política.
“A percepção de que o voto já não é capaz de produzir mudanças concretas favorece o afastamento do eleitor das urnas. A abstenção elevada é um sinal desse distanciamento entre a política e o eleitor”, diz Medeiros.
Raio-X da abstenção
A abstenção de 21,08% deste ano seguiu o ritmo de crescimento da ausência no primeiro turno dos últimos anos. Em 2022, o segundo turno não teve um movimento para que mais pessoas fossem às urnas escolher um presidente, segundo dados do TSE.
Ainda assim, levar esses eleitores a reconsiderarem e votarem é uma das estratégias de comunicação do presidente Lula, que saiu em desvantagem da primeira etapa de votação. Medeiros indica que esse será um dos maiores desafios a partir de agora.
“O segundo turno acende um alerta ainda maior para a abstenção. Com 21 governos estaduais definidos, a eleição presidencial será a única disputa em grande parte do país”, explica o cientista político.
“Isso esvazia a mobilização política nos estados, desestimula o engajamento das lideranças locais e enfraquece as estruturas de campanha responsáveis por levar o eleitor às urnas”, disse Medeiros.
Dados do TSE mostram que os maiores percentuais de eleitores que deixaram de votar são das regiões: 15 milhões de eleitores do Sudeste (22,7%) e 2,6 milhões do Centro-Oeste (21,7%).
“Aumentar o comparecimento, portanto, não significa aumentar os votos de Lula. Tudo depende do perfil político de quem ficou em casa”, afirmou Medeiros. Já no Nordeste, região que votou em sua maioria em Lula, 18,4% dos eleitores deixaram de comparecer às urnas. O contingente representa 8 milhões de eleitores.
Levar esse eleitor às urnas, no entanto, representa um desafio para as campanhas que buscam ampliar o número de votos. “Embora o voto seja obrigatório no Brasil, a multa pelo não comparecimento é irrisória. O custo e as dificuldades para chegar às urnas, especialmente para eleitores de renda mais baixa, superam o valor da própria penalidade”, explica. G1





