Saúde

Doenças inflamatórias intestinais crescem mais de cinco vezes no Brasil em 13 anos

Em 2012, cerca de 30 em cada 100 mil brasileiros viviam com uma doença inflamatória intestinal (DII). Em 2025, eram 158. O salto, de mais de cinco vezes em pouco mais de uma década, é o principal achado de um estudo apresentado na sexta-feira (25) no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia, em Balneário Camboriú (SC). Os autores o descrevem como um dos maiores retratos epidemiológicos dessas doenças já feitos em países em desenvolvimento.

A pesquisa identificou 337.539 pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2012 e 2025. “Na primeira análise, já percebíamos que o perfil dessas doenças no Brasil estava mudando. Com cinco anos a mais de dados, a velocidade dessa transformação ficou evidente. O que parecia uma tendência se consolidou como um fenômeno epidemiológico que as políticas públicas de saúde precisam levar em conta”, afirma o coloproctologista Abel Quaresma, professor do curso de Medicina da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e um dos líderes do estudo.

Novos diagnósticos aceleram a partir de 2018

Além da prevalência, que soma todas as pessoas que convivem com a doença em determinado momento, os pesquisadores acompanharam a incidência, ou seja, o número de novos diagnósticos a cada ano.

Esse indicador passou de 9,35 para 12,34 casos por 100 mil habitantes no período. Enquanto a prevalência tende a subir sempre, porque os casos se acumulam ao longo dos anos, a incidência revela o ritmo do avanço. Por isso chamou atenção dos autores a mudança de curva identificada em 2018, quando os diagnósticos passaram a crescer mais depressa.

O motivo ainda é desconhecido. Segundo Quaresma, o aumento reflete ao mesmo tempo o crescimento da população, a expansão das DII no mundo todo e o fato de a doença estar mais conhecida, o que faz os médicos pensarem nela com mais frequência. Nenhum desses fatores, porém, explica isoladamente a virada de 2018.

“Este é um estudo que levanta mais perguntas do que respostas. Não sabemos o que aconteceu em 2018 para a tendência mudar. É possível que a doença tenha ganhado mais visibilidade, que o diagnóstico tenha melhorado ou que alguma condição associada a ela tenha piorado, mas, por enquanto, tudo isso ainda é hipótese”, diz o pesquisador.

As doenças inflamatórias intestinais reúnem principalmente a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn, condições crônicas marcadas por inflamação persistente do trato digestivo. Não têm cura. O tratamento busca controlar a inflamação e os sintomas, estado chamado de remissão clínica, e inclui, nos casos mais graves, medicamentos biológicos que podem custar até R$ 500 mil por ano.

Projeção indica 264 casos por 100 mil habitantes em 2035

Os modelos estatísticos do estudo estimam que, mantida a tendência atual, a prevalência chegará a 264 casos por 100 mil habitantes em 2035, alta de 67% em relação a 2025. A incidência também deve continuar subindo e pode alcançar 22,7 novos casos por 100 mil habitantes, patamar semelhante ao registrado hoje em algumas regiões da Europa. Para Quaresma, o dado mais relevante não é o volume de casos, mas o tipo de demanda que ele cria.

“Estamos deixando de tratar de uma doença relativamente rara para lidar com uma condição crônica de peso crescente sobre o sistema de saúde. Muitos pacientes são diagnosticados ainda jovens e vão precisar de acompanhamento por décadas, o que muda a dimensão do problema.”

O pesquisador ressalta que a estimativa se baseia em tendências passadas e pode mudar. A ampliação do acesso à colonoscopia em regiões hoje desassistidas ou uma alimentação ainda mais industrializada tendem a elevar os números. Hábitos mais saudáveis, ou até uma crise que reduza a capacidade de realizar exames, podem puxá-los para baixo.

Os autores admitem que o total real de pacientes é provavelmente maior, já que o levantamento considera apenas o SUS. Parte dos pacientes com plano de saúde recorre à rede pública para obter os biológicos e entra na conta, mas quem recebe os remédios pelo convênio fica de fora. G1

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