O CEO da Quaest, Felipe Nunes, afirmou que a eleição presidencial de 2026 começa marcada por uma estabilidade profunda do eleitorado brasileiro, com a disputa nacional “calcificada” entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o campo bolsonarista, agora representado por Flávio Bolsonaro.
Em análise publicada pelo G1, Nunes avalia que o Brasil chega ao novo ciclo eleitoral dividido “quase nos mesmos lugares e em proporções muito próximas às de 2022”. Segundo ele, há oscilações nas pesquisas, mudanças de intensidade entre os estados e impactos de candidaturas locais, mas nada que altere, até aqui, a estrutura central da disputa.
“Calcificação não significa que nada muda. Significa que as mudanças acontecem dentro de limites estreitos, sem alterar a estrutura que organiza a escolha dos eleitores”, escreveu o cientista político.
Na avaliação de Nunes, Lula preserva sua principal base eleitoral no Nordeste, enquanto Flávio Bolsonaro herda a vantagem do bolsonarismo no Sul e em parte do Centro-Oeste. São Paulo segue dividido, com inclinação à direita, e Minas Gerais permanece como o estado mais próximo do equilíbrio nacional.
O levantamento analisado por Nunes compara o desempenho atual de Lula com o resultado de 2022 a partir do total de eleitores aptos, e não apenas dos votos válidos. A escolha metodológica, segundo ele, é necessária porque as pesquisas medem todos os eleitores, incluindo aqueles que poderão se abster ou votar em branco e nulo.
Feito esse ajuste, Lula aparece dentro da margem de erro de seu desempenho de 2022 em 16 das 25 unidades da Federação incluídas na consolidação. O presidente está acima do patamar anterior em cinco estados e abaixo em quatro. Para Nunes, isso mostra que, em quase dois terços dos estados pesquisados, não há evidência estatística de mudança em relação à eleição passada.
As variações mais relevantes, segundo a análise, reforçam movimentos regionais, e não uma onda nacional. Lula melhora no Maranhão, em Pernambuco, Sergipe, Rio Grande do Norte e Rondônia. Por outro lado, perde terreno em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
O Nordeste continua sendo o principal sustentáculo eleitoral de Lula. Na Bahia, o presidente registra 53% das intenções de voto no cenário consolidado, praticamente repetindo o patamar de 2022 quando considerado o total de eleitores aptos. Em Pernambuco, chega a 54%, três pontos acima do desempenho anterior. No Rio Grande do Norte, avança de 49% para 54%.
Essa vantagem regional é decisiva para a competitividade petista. Sem o desempenho robusto no Nordeste, Lula teria mais dificuldade para compensar as derrotas no Sul e em parte do Sudeste, onde o bolsonarismo segue com força expressiva.
No campo adversário, Flávio Bolsonaro reproduz a geografia eleitoral construída por seu pai, Jair Bolsonaro. Em Santa Catarina, aparece com 45% no primeiro turno, contra 20% de Lula. No Rio Grande do Sul, lidera por 34% a 28%. No Paraná, mantém vantagem ampla.
“O dado mais importante talvez seja justamente a capacidade de transferência do voto bolsonarista”, avaliou Nunes. Para ele, embora Flávio não tenha a trajetória nem o grau de relevância nacional do pai, consegue ocupar o mesmo espaço político e reconstruir boa parte da coalizão eleitoral da direita.
“O sobrenome funciona como um atalho: oferece identidade, organiza adversários e reduz o custo de coordenação da direita”, escreveu o CEO da Quaest.
Nos três maiores colégios eleitorais do país, a disputa aparece tecnicamente empatada. Em São Paulo, Flávio tem 30%, contra 29% de Lula. Em Minas Gerais, o placar é de 31% a 30%. No Rio de Janeiro, Flávio aparece com 31%, e Lula, com 29%. Todos os resultados estão dentro das respectivas margens de erro.
O equilíbrio nesses estados é um dos pontos centrais da análise. Mesmo após quatro anos de governo Lula, crises políticas, mudanças econômicas e a substituição de Jair Bolsonaro por Flávio como representante do bolsonarismo, os dois campos chegam ao início da campanha praticamente nivelados nas unidades que concentram a maior parcela do eleitorado.
Nunes também destaca que a força simultânea de Lula e Flávio reduz o espaço para candidaturas alternativas. Somados, os dois concentram cerca de 60% das intenções de voto em São Paulo e Minas Gerais, superam esse patamar no Rio de Janeiro e ocupam parcelas ainda maiores nos estados em que um dos polos é dominante.
A exceção mais relevante é Goiás. No estado, Ronaldo Caiado transforma a força de seu governo e de sua trajetória local em competitividade presidencial. Ele supera Lula e aparece tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro. Ainda assim, segundo Nunes, o caso goiano mostra o limite das alternativas: ter força no estado de origem não significa construir uma coalizão nacional.
Até agora, nenhuma candidatura fora dos dois polos conseguiu levar seu desempenho local para o restante do país com força suficiente para reorganizar a corrida presidencial. Por isso, a eleição se move, nas palavras do analista, dentro de “trilhos já conhecidos”.
A campanha, ressalta Nunes, ainda importa. Ela pode alterar o comparecimento, convencer indecisos e mudar a intensidade com que cada grupo chega às urnas. Em uma disputa equilibrada, pequenas diferenças de mobilização podem decidir o resultado.
O diagnóstico principal, porém, é que a corrida presidencial começa sem realinhamento eleitoral relevante. “O Brasil de 2026 continua dividido, quase nos mesmos lugares e em proporções muito próximas às de 2022”, afirmou Nunes.
Para o CEO da Quaest, essa é a força e o limite de uma eleição “calcificada”: os eleitores podem mudar de avaliação sobre governo, economia ou candidatos, mas, diante dos dois campos que organizam a política nacional, a maioria continua voltando para o mesmo lado da divisão.





